20 novembro 2017

mário-henrique leiria / eu sei



eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como uma ponte de velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através dos
teus cabelos




mário-henrique leiria
a única real tradição viva
antologia da poesia surrealista portuguesa
perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
1998






19 novembro 2017

bernardo soares / absurdo





Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é (o) divino.

Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas — agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam — talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.

Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.

s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982







18 novembro 2017

mário cesariny / rua do ouro




Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage: que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batendo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sócio? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!

Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard



mário cesariny
nobilíssima visão
assírio & alvim
1991






17 novembro 2017

pedro oom / as virtudes dialogais



Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.


pedro oom
a única real tradição viva
antologia da poesia surrealista portuguesa
perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
1998








16 novembro 2017

nuno júdice / é isto o amor







Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


nuno júdice
pedro, lembrando inês
as  vozes do silêncio
edições apuro
2017



15 novembro 2017

allen ginsberg / canção




O peso do mundo
                é amor.
Sob o fardo
                da solidão,
sob o fardo
                do descontentamento


                o peso,
o peso que carregamos
                é amor.


Quem pode negar?
                Toca
em sonhos
                o corpo,
constrói
                em pensamento
um milagre,
                angustia-se
na imaginação
                até nascer
no humano –


espreita pelo coração
                ardendo puramente –
pois o fardo da vida
                é amor,


carregamos porém o fogo
                com fadiga,
temos pois de descansar
nos braços do amor
                enfim,
temos de descansar nos braços
                do amor.


Não há descanso
                sem amor,
  não há sono
                sem sonhos
de amor –
loucos ou indiferentes
que sejamos, obcecados
                com anjos ou máquinas,
o derradeiro desejo
                é amor
– não pode amargar
                não se pode negar,
 não se pode conter
                se negado:


pesa de mais este peso


                – tem de se dar
sem rendimento
                como se dá
o pensamento
                na solidão
na suprema excelência
                do seu excesso.


Os corpos quentes
                brilham juntos
no escuro,
                move-se a mão
para o centro
                da carne,
treme a pele
                de felicidade
e vem-se a alma
                exuberante aos olhos –


sim, sim,
                era isso que eu
queria,
                que eu sempre quis,
eu sempre quis
                regressar
ao corpo
                onde eu nasci.


San Jose, 1954




allen ginsberg
uivo e outros poemas
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2014





14 novembro 2017

roland barthes / um pequeno ponto no nariz



5.
O discurso de amor é, normalmente, um envelope liso colado à Imagem, uma luva macia que rodeia o ser amado. É um discurso devoto, cheio de bons sentimentos. Quando a Imagem se altera, dilacera-se a capa de devoção; um tremor modifica a minha própria linguagem. Ferido por uma motivação que surpreende, Werther encara de repente Carlota como uma espécie de comadre, incluindo-a no grupo das companheiras com quem ela tagarela (ela já não é a outra mas sim uma outra entre outras) e diz então desdenhosamente: «minhas mulherzinhas» (meine Weibchen). Uma blasfémia assoma bruscamente aos lábios do sujeito e vem destruir a bênção do apaixonado; está possesso de um demónio que fala pela sua boca, de onde saem, como nos contos e fadas, não flores, mas sapos. Horrível refluxo da Imagem. (o horror da destruição é a angústia de perder.)


roland barthes
fragmentos de um discurso amoroso
trad. isabel pascoal
edições 70
2017




13 novembro 2017

joaquim manuel magalhães / tão altas as primeiras árvores



Tão altas as primeiras árvores.
Vem a primavera destruí-las.
Fulgores fugazes os cabelos
à poeira do céu.

A alma pisada de caminhos,
o meigo revólver do olhar
vêem-te partir.
Por essa cidade, perdido
na suavidade da chuva.

Rasgam de novo as mãos
o inexpugnável nome
dos amantos, a flor secreta
que dizia a tua boca.

Tanta coisa de ti que nada sei.



joaquim manuel magalhães
segredos, sebes, aluviões
editorial presença
1985



12 novembro 2017

bernardo soares / a divina inveja



Sempre que tenho uma sensação agradável cm companhia de outros, invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por intermédio da alma, unissonamente sentindo.

A grande dificuldade do orgulho que para mim oferece a contemplação das paisagens, é a dolorosa circunstância de já as haver com certeza contemplado alguém com um intuito igual.
A horas diferentes, é certo, e em outros dias. Mas fazem-me notar como seria acariciar-me e amansar-me com uma escolástica que sou superior a merecer. Sei que pouco importa a diferença, que com o mesmo espírito em olhar, outros tiveram ante a paisagem um modo de ver, não como, mas parecido com o meu.

Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a tomá-lo irrefragavelmente meu — de alterar, mentindo — o momento belo e na mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente — e assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar com que espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.

Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e abandonados momentos de sonho arquitecto muito mais.

Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens visuais — curioso e dificílimo triunfo do êxtase, tão difícil porque o agente evocativo é da mesma ordem de sensações que o que há-de evocar. O meu triunfo máximo no género foi quando, a cena hora ambígua de aspecto e luz olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos — curioso pagode chinês pintado no espaço, sobre o espaço cetim, não sei como, sobre o espaço que perdura a abominável terceira dimensão.

E a hora cheira-me verdadeiramente a um ruído [...] e longínquo e com uma grande inveja de realidade...

s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982



11 novembro 2017

irene lisboa / passeios



1
Não parar.
Nunca parar, nem para descobrir a água, nem
para ouvir as cigarras, o vento, o corvo des-
garrado.
Andar!
Tortuosos, solitários, fáceis caminhos, ir-vos sem-
pré seguindo.



irene lisboa
umdia e outro dia…
outono havias de vir
obras de irene lisboa
volume I poesia I
editorial presença
1991


10 novembro 2017

jorge de sena / como queiras, amor...



Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

1959



jorge de sena
post-scriptum  (1960)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972




09 novembro 2017

amalia bautista / a foto



Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram.


amália bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013






08 novembro 2017

jacques brel / a canção dos velhos amantes




Sem dúvida entre nós houve tormentas
Vinte anos de amor é o amor louco
Mil vezes fizeste as malas
Mil vezes levantei voo
E neste quarto sem berço
Não há móvel que não se lembre
Do roncar das nossas tempestades
Já nada era como antes
Tinhas perdido o gosto pela água
E eu o gosto pela conquista

                Meu amor
                Meu meigo meu terno meu maravilhoso amor
                Da madrugada clara até ao fim do dia
                Amo-te ainda sabes amo-te

Eu sei todos os teus sortilégios
Tu sabes todos os meus encantamentos
Foste-me prendendo de cilada em cilada
Fui-te largando de vez em quando
Sem dúvida tiveste alguns amantes
Havia que passar o tempo
Havia que gozar o corpo
E finalmente finalmente
Muito talento nos foi preciso
Para sermos velhos sem sermos adultos

                Meu amor
                Meu meigo meu terno meu maravilhoso amor
                Da madrugada clara até ao fim do dia
                Amo-te ainda sabes amo-te

E do tempo o maior cortejo
Maior tormento nos faz
Mas não será viver em paz
A pior das ciladas para os amantes
Sem dúvida choras um pouco menos cedo
Eu despedaço-me um pouco mais tarde
Protegemos menos os nossos mistérios
Damos menos azo ao acaso
Desconfiamos das águas mansas
Mas a doce guerra não tem fim


                Meu amor
                Meu meigo meu terno meu maravilhoso amor
                Da madrugada clara até ao fim do dia
                Amo-te ainda sabes amo-te






jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997